Cheiro de carro novo é desenvolvido por time de especialistas

07/04/2013 - 01h16 - FELIPE NÓBREGA DE SÃO PAULO

O aroma característico de modelos zero-quilômetro é tão valorizado pelo consumidor que a maioria das montadoras possui uma equipe específica para isso, o "nose team" (time dos narizes).


"O cheiro está associado à conquista do carro novo", afirma Adília da Conceição Afonso, supervisora de acabamento da Ford.

Esse aroma é o resultado da união das fragrâncias características dos materiais da cabine, como borracha, plástico e tecido. O trabalho dos especialistas é estabelecer combinações que sejam agradáveis.

Hoje os fabricantes entendem que o conforto sensorial interfere diretamente na percepção de qualidade de seus produtos. Por isso, as peças do interior do veículo são cheiradas uma a uma em clínicas e, caso não agradem ou provoquem alergias, são reformuladas antes de entrar em produção.

Na Volkswagen, cabe à osmóloga (especialista em aromas) Maria de Lourdes a tarefa de "sentir" cada componente e também a de analisar o odor final do veículo.

"Há uma escala que vai de 1 (inodoro) a 6 (insuportável). Se receber nota acima de 3, o item é reprovado", conta Maria de Lourdes, que uma vez por ano viaja à Europa para "calibrar" seu nariz na companhia de outros avaliadores do grupo VW.

A Audi criou seu "nose team" em 1985. Atualmente, há seis técnicos na Alemanha, sendo quatro mulheres.

"Não adicionamos aromatizantes aos componentes. Apenas fazemos a combinação correta deles na cabine. Cada modelo possui um aroma para atrair seu público", diz Heiko Lüssmann-Geiger, chefe do laboratório de odores da marca.

Pelos padrões da empresa alemã, o cheiro característico de carro novo tem de durar cerca de seis meses.

Porém, equipar o carro com tapetes de borracha e hábitos como fumar ou comer na cabine podem mascarar a fragância original. Supermercados e lojas de acessórios oferecem produtos que prometem imitar o cheiro de carro novo, mas o alergista Adriano Bueno de Sá alerta: "Alguns aromatizadores podem provocar sono, dor de cabeça e irritações nasais".

Além dos especialistas em cheiros, as montadoras possuem outros profissionais cuja função é desenvolver soluções que vão além dos conceitos mecânicos.

Há, por exemplo, o "maestro" que afina o ronco dos motores e os engenheiros que cuidam das texturas da cabine. O objetivo é despertar sensações que proporcionem admiração pela marca e fidelidade aos seus produtos.

VISÃO

Um dos laboratórios mais secretos dentro das montadoras, o estúdio de design costuma promover reuniões com projetistas, fornecedores e até mesmo potenciais clientes para definir o estilo de produtos futuros.

Geralmente, esse processo acontece em um intervalo de dois a quatro anos antes do lançamento do carro.

Pesquisas de fabricantes apontam que o desenho ainda é o principal fator motivador da compra de um automóvel.

"Carros populares são os mais desafiadores. Superfícies refinadas, com excesso de detalhes, esbarram no custo de produção", conta Casey Hyun, projetista do Hyundai HB20.

AUDIÇÃO

O nível de ruído está ligado à sensação de conforto na cabine. O painel em peça única e as mantas de isolamento sob o carpete ajudam a diminuir o ruído interno. As montadoras escalonam os limites de acordo com a categoria do automóvel. Quanto mais luxuoso, mais silencioso.

Esportivos, por exemplo, nasceram para fazer barulho. Fabricantes como Mercedes e Ferrari possuem profissionais que afinam o som de seus motores.

Um caso marcante ocorreu no final dos anos 1990, quando a Porsche precisou trocar o sistema de refrigeração a ar da linha 911 por um arrefecido a água. Todo o escapamento foi reprojetado para que o "rugido" característico do cupê permanecesse.

Já no novo Audi S7, um botão aumenta ou diminui a interferência do som do motor na cabine. Os alto-falantes do sistema de som são usados para equalizar as frequências.

TATO

Hoje a maioria dos carros é global. No entanto, eles passam por adaptações para se enquadrar ao gosto do mercado ao qual se destinam.

O consumidor brasileiro, por exemplo, prefere cabines em tons mais escuros e bancos com revestimento sedoso. Já o chinês gosta de tons claros e peças cromadas.

Consumidores de todos os mercados gostam de tatear os veículos para avaliar as texturas antes de fechar negócio. É por isso que os materiais são exaustivamente trabalhados pelas montadoras e, depois, têm suas características salientadas pelos vendedores.

"Para desenvolver a trama que caracteriza a superfície do painel do novo EcoSport, visitamos muitas lojas de cortinas e carpetes em busca de inspiração", revela Adília da Conceição Afonso, supervisora de cores e de acabamento da Ford.

OLFATO

A rotina dos especialistas em aromas automotivos é bastante rígida. Os profissionais têm de tomar diversos cuidados para que fatores externos não interfiram na percepção dos odores.

"Não bebo café durante o expediente, não uso perfume e nem chupo balas de hortelã antes de inspecionar os carros. Também preciso ser vacinada contra gripe todos os anos", conta Maria de Lourdes, osmóloga da Volkswagen.

Se o odor exalado na cabine do carro provoca algum incômodo, o interior é reformulado.

"Aquecemos as peças para fazer os testes, pois é no calor que os aromas dos automóveis são acentuados", diz a especialista em aromas.

Colaborou RICARDO RIBEIRO

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